quarta-feira, 8 de junho de 2011

Lembretes

1 - Preciso me expor mais
2 - Preciso escrever mais
3 - Preciso fazer uma viagem no pequeno riquixá de vagabundo plástico que está na minha estante
4 - Preciso reunir, ordenar minhas ideias e publicar meu livro.

Tudo isso para a minha salvação

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Almofada

Quisera eu mergulhar profundamente
em seu alvo corpo formado de penas e ar
abraçar - com minhas 8 patas - todo o teu ser
preencher o meu corpo com as tuas lacunas
com peçazinhas que se encaixam e se desencaixam de forma única.

Me vejo afundando de cabeça em tua brancura
alvor que não se traduz em uma pureza lacônica e monótona
Se veste de gostosa melancolia. De uma luz que se abre em espelhos narcísicos
que de teu corpo de forma imperfeita
se traduz em mais-que-perfeição.

Tempo do futuro do pretérito. Aquele que nunca vai ser.

Quisera ter coragem de falar-te palavras reais. Um duro eu te amo - do qual sei que tens medo.
Quisera ser audaz e negar este terror que habita meu vermelho coração.
Vermelho, que inunda e destonifica o branco de seu corpo.
Talvez tenha medo que o vermelho das minhas palavras
ocupe o lugar que deveria ser do meu corpo.

definitiva e para sempre. Infeliz. Para Sempre.

sábado, 16 de outubro de 2010

Renovação

Hoje estou fechado para a política. Não desviarei meu olhar para ver candidatos almejando a vitoria a todo o custo. Sorrisos falsos, rostos plásticos, danças e hábitos que revelam a completa incompatibilidade com o mito do popular.

Hoje abro a minha janela para ouvir o canto dos pássaros. Que cantam pelo simples motivo de ver o sol raiar. Que não se importam se o público acredita que seu timbre é agudo demais ou grave demais... que não seguem conselhos de marketeiros apontando quais os caminhos a seguir para avançar alguns pontinhos na pesquisa pela predileção do eleitor.

Pássaros e flores são sábios. Não se envolvem em debates estereis, mas apenas querem cantar. Querem viver. Acho que sigo o exemplo deles. Pelo menos por hora.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Anjos e demônios

Estou lendo "A Casa dos Espíritos", da escritora chilena Isabel Allende. Há muitos anos, eu vi o filme no cinema e aquela constelação de estrelas, acredito, deu conta de passar uma história forte, familiar. Como dizem os espanhóis, "me gustan las sagas familiares". E a formação da Familia Trueba, o perfil de Clara del Valle e Estebán Trueba, são absolutamente maravilhosos de devorar. Aos poucos, como uma iguaria que vai derretendo na boca à medida em que a saliva quente da devoção por boas histórias a domina.

O que me impressiona na narrativa de Allende é a capacidade de suceder descrições absolutamente angelicais a linhas que mostram situações que beiram ao escatológico. De repente, saltamos de uma descrição de um banho sendo dado, onde chegamos a sentir os cheiros de alfazema, talco granado e sabonete Phebo e, nas linhas imediatamente seguintes, a atmosfera é tomada pelo mais absoluto odor de enxofre.

Ainda estou no capítulo 3, onde, após 9 anos de um silêncio voluntário, a nossa heroína abre a boca para declarar que se casará com o homem que havia sido noiva de sua irmã, morta acidentalmente envenada em alguns anos anteriores. O casamento é marcado, realizado, e há uma troca do masculino. O cachorro que a seguiu durante a adolescência não suportou a concorrência e morreu demoradamente durante a cerimônia. Vale a pena ler este trecho pensando no porre em que se tornaram as núpcias em nossa sociedade burguesa.

Mas o mais importante é que, no fundo, essas descrições bipolares nada mais são que a explicação de nossa própria natureza. Não somos totalmente anjos e não suportamos o peso integral da demonice. A levez do ser humano consiste em equilibrar esses dois pratos. Sem deixá-los cair. E os personagens allendianos são a expressão perfeita dessa dinâmica.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Escrever é...

Escrever é um ato de me desnudar. É permitir que tudo aquilo que eu impeça saia de uma vez. De um fôlego. E, a cada linha que escrevo, sinto-me desnudar. Cada letra é um fibra a menos de pano a cobrir meu corpo, que se vê fragilizado diante do vento das emoções e da paixão. O mesmo vento que embalava os amores trágicos da literatura. Aquele vento que uivava no romance de Brontë; que selava, com ódio e ciúme o amor eterno, impossível, inconciliável e além da vida de Heathcliff e Catherine. O vento que untava, como cimento ressequido por muitos verões, o ciúme, o outro lado do amor, de todos esses casais e que os impedia de fugir de seu inexorável destino.

Escrever é soltar esta pantera de dentro de mim! É ver, através do espelho d´água, a minha imagem narcísica se formar. Onde tudo o que é certo é errado e tudo o que é torto se endireita. Onde o revés dos passos minimamente calculados produz o verdadeiro destino, cria as histórias, modifica as dinastias e inscreve nossa mísera insignificância no panteão dos sistemas de conhecimentos humanos e inumanos.

Escrever é soltar as palavras poéticas sem poesias. Imagens desconexas, sem rima, mas que comunicam: o nada, o tudo, o vazio e a amplidão. Sentimentos contraditórios e coexistentes. Tal como a água e o óleo, que podem se casar por toda a eternidade, mas que nunca se fundem, nunca se misturam. Mantêm intactas suas próprias personalidades, suas características, para formar o todo harmônico.

Escrever é harmonizar os sentimentos tal como as vozes em um coral. Os indíviduos se fundem num único, onde não conseguem ser identificados, por mais que o ouvido seja treinado. Escrever é inseminar um feto no útero, onde, por míseros 9 meses, bebê e mãe se fundem num só, encaminhando-se para um inexorável final ponto.

Fez-se se a luz! Eis o milagre da vida, do nascimento do indivíduo, que irá, como num ciclo eterno, buscar trilhar o seu caminho independente. Para isso, uns irão viver, outros irão sentir, outros irão jogar futebol, alguns terão o maravilhoso dom da música, outros o dom de explorar, mais alguns, os de serem explorados. A mim, apenas me restou o dom de amar. E de escrever sobre aquilo que não posso me expressar. Sobre o indizível. E, com muita sorte, talvez ser compreendido. Nem que seja por mim mesmo...

sábado, 13 de março de 2010

Pensamentos desconexos num sábado à noite

Li no jornal que a recomendação para o meu signo era refrear o espírito aventureiro por enquanto, para aproveitá-lo depois. Sou de sagitário, aquele signo que se ouriça só de pensar em imaginar-se preso em uma gaiola... queremos tudo! queremos a liberdade completa! Talvez por isso, fico um pouco chocado ao ler os comentários de Clarice sobre a liberdade... liberdade para quê.

Mas estou bem. Aqui, em casa, no refúgio do meu coração, repasso a minha vida. Antes pensava que, cada sábado à noite que não saísse, perdia um pouco de mim. Perdia a oportunidade de conhecer pessoas legais, tinha a ilusão de que o meu grande amor estaria por aí e que bastaria sair para me deparar com ele.

Hoje eu vejo que posso ganhar mesmo ficando parado. Posso buscar dentro de mim essa energia fugidia, armazená-la, colocá-la dentro de mim para usá-la no momento certo, momento este que traria consigo as melhores condições para viver. Para dançar, para conversar, para amar.

Estou sereno, este texto não é um auto-consolo. Agora, quero ler a íntegra da crítica de Antonio Candido ao Grande Sertão:Veredas. Não me contento com parte, quando o todo está disponível. Lerei na grafia da época, que escrevia facto em vez de fato. Talvez uma fase onde houve espaço para um "c" que nunca era pronunciado. Até as letras precisam se adaptar aos tempos do "menos é mais".

A ficção está difícil de vir hoje, até estava com inspiração, mas ela me fugiu. Não há como se concentrar com tantas idéias circulando entre as instantâneas sinapses. Em um momento, era algo, no milésimo de segundo anterior outro algo atropelou o momento, se sobrepondo, se intercalando, se interremediando.

Não sei bem como escrever. Não sei o que descrever. Sinto que tudo pode ser escrito e nada compreendido. Sinto que tudo deve ser compreendido, para nada ser escrito.

Daqui a pouco vor dormir. Sinto falta de literatura. Mais de 10 dias sem pegar num livro para ler com prazer provoca uma grande crise de abstinência. Chego-me a me imaginar debatendo no chão. Queria Graciliano, mas não acho o meu exemplar. Por outro lado, queria algo curto para devorar por esta madrugada quente. Preciso de refrigerio para a minha alma acalorada por este clima dos trópicos. Preciso de água gelada para refrescar o meu corpo ressequido pela ignorância de não saber.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Lá Fora... Aqui Dentro

Hoje decidi deixar o mundo lá fora a seu léu... Os sons da Baixa Augusta, sempre altos como de costume, chegam a meus ouvidos, como o canto da sereia assoviado que busca o ouvido dos nautas incautos. Mas fechei a porta para o mundo frio que se encerra lá fora. Decidi voltar meus doces ouvidos ao calor do que diz o coração.

Ouço um pouco de música. O sono insiste em não chegar. E, nessa vigília, busco lá dentro, lá no fundo, a essência. Do quê? De mim. Lembro de Clarice nessa hora. Esta busca pelo eu pode ser perigosa... já pensou se descobrimos algo.

Penso nos romãnticos, incompreendidos por uma civilização que condena o abuso, o exagero, o anormal como se esse mantra do menos é mais fosse algum dia normal... mas o que é o normal?

São pensamentos disconexos, que vem e vão num frenético ritmo compassado mais pela respiração que pelas batidas do coração. Junto à minha rua havia um bosque, que um muro alto proibia... mas porque não pulamos o mundo para ver o que há do outro lado? Ser-nos-á permitido, a nós pobres mortais, voltar a enxergar após tão maravilhosa luz?

Os românticos se vestem da couraça da ironia para disfarçar o seu eu... querem chorar, mas riem dos próprios defeitos... querem gritar, mas afinam a voz para soar como uma Nara Leão fora de seu contexto histórico. E buscam justificar injustificadamente o seu eu imutável de romântico inveterado, aquele mesmo... do tipo que ainda manda e haverá de mandar flores.

É um pobre de carinho que se agarra a qualquer mísero e imaginável sopro de esperança. e despreza a realidade, o que tem à mão.

Lá fora, a Baixa Augusta continua a martelar o seu canto de sereio... aqui dentro, o rufar de violinos bem comportados dentro de um smoking continua a alumiar a fantasia perigosa e errônea que ainda dá sentido ao bater deste coração.