quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ouviram do Ipiranga o Krlho a 4

Meses atrás, Vanusa foi a estrela do you tube ao cantar errado o hino nacional brasileiro. Algumas TVs exploraram o assunto ao máximo. Uma delas estabeleceu prêmio em dinheiro para quem conseguisse cantar, do início ao fim, o hino, sem errar a letra. E ainda com as duas estrofes completas.

Aliás, estrofes que se tornaram desnecessárias. Não sabemos cantar o hino porque ele não nos diz nada... o português castiço, a linguagem rebuscada só confunde um povo que aprendeu a simplificar a complexa realidade cotidiana

Vamos fazer um trato? Perdoemos Vanusa pela gafe, que poderia ocorrer com qualquer um de nós, e adotemos um novo hino, que retrate mesmo, em uma linguagem simples, porém honesta e verdadeira, o que seria o brasileiro.

Minha sugestão

http://www.youtube.com/watch?v=8EAOrouvLGc&feature=related

Amor I love You

As intenções não correspondem às palavras.

As expressões não correspondem às intensões.

O instinto de sufocar sonhos perdidos no passado, que não voltarão

mais

nunca mais!

nos levam a criar mecanismos

máscaras

falsos espelhos

buracos negros...

que encarnam o passar desperdiçado do tempo e

revelam verdades inventadas para maquiar o não-feito

Amor I love You

http://www.youtube.com/watch?v=5TdTacizYdA

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Entre a mentira e a escuridão

Mentir às vezes é necessário. E não necessariamente uma mentira foi utilizada para prejudicar outra pessoa. Às vezes, ocultar a realidade pode ser vital para a autosobrevivência.



Essas afirmações podem ser amorais? O dono deste blog enlouqueceu! Não. Talvez, o preço da mentira seja alto. Demasiadamente alto. Custa noites de sono mal dormidas, taquicardias, medos, inquietações. A paz de espírito é afugentada. É necessária uma barganha imensa, repleta de respirações, orações, transpirações para que, com ele, também retorne o sono. O sono tranquilo dos justos.

A mentira é uma tênue linha, que divide a nossa consciência entre a calma, a lucidez, de um lado, e as perseguições da nossa moral de outro. E o indivíduo caminha, na ponta dos pés, timidamente, para que não possa cair de um lado ou de outro. Para abafar o som de um coração que insiste em denunciar aos outros aquilo que lhes está encoberto sobre os olhos. Que insiste em tirar das regiões púberes a pobre folhinha que esconde as vergonhas, denunciadas pelo prazer do fruto proibido e de toda a perigosa liberdade que lhe advém. Uma liberdade que pode trazer muitas recompensas. Mas a um preço elevado.

Porém, resta-nos a verdade? Talvez, a minha falta de sono seja um sinal a procura desta noção.

sábado, 29 de agosto de 2009

Retorno

Aos poucos, a alma destroçada retorna... naquele eterno retorno nietschiniano resgatado pela leitura-barata-pseudointelectual-depapeljornalbarato-kunderiano. Após um acidente, um corpo pode voltar a se recuperar. Mas... e uma alma? Ela se recuperará ou viverá para todo o sempre, como um vaso que caiu, carregando as marcas indeléveis das dores e dos traumas?

Somente hoje percebi que passaram-se 8 meses sem nenhum texto. Sem nem um remédio que possa aplacar as dores da alma. Um escritor, acima de tudo, gasta seu tempo, escreve, desenvolve externas tramas para explicar seus internos traumas.

Será que não houve necessidade de medicação nesse período que se passou? Será que, como a Carolina de olhos fundos do Chico, eu fiquei na janela e só eu não vi o tempo passar? Será a mesma preguiça que nos afasta dos necessários exercícios físicos que me afastou do exercício indispensável da crônica?

Escrita exige disciplina. Mas também exige ter o que dizer. E sinto, realmente, que tudo se esvai. Tenho medo de ser repetitivo, temo expor o mais do mesmo que vive dentro de mim. Não há personagens multifacetados nos quais posso dividir o meu eu dividido em muitos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Releituras

Influenciado por motivos alheios, ando fazendo releituras de obras da literatura brasileira há algum tempo adormecidas. Antes, tinha o costume de ler um livro por vez, mas à medida que passam os anos, venho lendo aquilo que me dá vontade.

Semana passada, fui ver a cópia restaurada de São Bernardo, filme homônimo do clássico romance de Graciliano Ramos, fielmente transplantado para a grande tela. Fiquei com vontade de revisitar o livro. Eu tinha uma edição, de 1953, amarelada pelo tempo e me deliciei ao viajar novamente naquelas páginas, recuperando, pouco a pouco, as sensações que me imprimiram no espírito as primeiras descrições das fortes personalidades de Paulo Honório e Madalena, personagens intrinsicamentes marcados pela tragédia da incompreensão.

Deixarei a biografia de Mao Tsé Tung de lado, mais uma vez, para voltar a reler D. Casmurro. Estou sob o efeito da maravilhosa adaptação feita pela equipe de Luiz Fernando Carvalho do clássico machadiano, preservando a sua rica estrutura narrativa e agregando, lado a lado, elementos modernos e tradicionais.

Percebe-se a modernidade da obra machadiana. Considero, ao assistir a minissérie, a minha quarta-leitura da clássica rememorização de Bentinho Santiago daquilo que foi seu grande amor e tragédia, os olhos de ressaca capitulinos.

Obviamente que, nas leituras anteriores, embarquei na viagem de tentar descobrir, infrutifiramente, se Capitu traiu ou não Bentinho ou se tudo foi fruto de uma mente fantasiosa.

Porém, ao ver o primeiro capítulo, pude notar porque D. Casmurro é um clássico e, ao mesmo tempo, cativante. Clássico porque a questão da traição é incidental na obra: o principal, realmente, não são os desencontros e desafetos dos protagonistas. As luzes centrais iluminam a eterna ópera performatizada pelos dois principais personagens da humanidade, o homem e a mulher. D. Casmurro é um clássico porque Machado de Assis tenta analisar a essência das almas feminina e da masculina. Em mais uma tentativa de delinear o assombro que é a diferença entre esses seres concavos, convexos, distintos, complementares, que podem habitar corpos separados, um mesmo corpo, corpos transpassados, corpos trocados, corpos tresloucados.

E, ao mesmo tempo, D. Casmurro é cativante à medida que, nas palavras do protagonista, ao tentar atar "as duas pontas da vida", Machado relembra - para o público e talvez para si próprio - as delícias martirizantes da adolescência, talvez em sua versão mais madura em Capitu, pelo simples fato de ser mulher. Isso tornou-se evidente para mim, na série, nas cenas dos namoricos nos jardins entre os dois, embaladas ao som de Beirut: o que se contempla é o alumbramento (lembrando o grande Manuel Bandeira), a pura inocência da segunda década de vida de qualquer um de nós, quando a vida ao mesmo tempo se apresenta simples e complexa, impossível e fácil, ao mesmo tempo. E Machado instala a empatia em nós ao criar este idílio introdutório, remetendo a um tempo futuro, onde nem as mais loucas parafernálias tecnológicas conseguiram arrancar esse comportamento que ainda se manifesta na juventude, tanto em seus aspectos cômicos quanto, nos casos mais radicais, embalados pela tragédia.

Enfim, Graciliano e Machado, além de clássicos, têm como ponto em comum a experimentação ousada de uma nova proposta de linguagem para a sua época e, curiosamente nos dois romances aqui apresentados, uma coincidência temática: as suspeitas de traição movem o drama tanto de D. Casmurro quanto de S. Bernardo. Bentinho e Paulo Honório, apesar de apresentar características diversas, encontram-se no vale das almas dos homens perdidos que não sabem lidar com a sua masculinidade diante de uma explosão de segurança de suas parceiras. A diferença é que Machado nos poupou - e se poupou também - de ver Capitu se degenerar fisicamente e mentalmente, sorte que não ocorreu a Madalena. Sabemos da separação do casal da obra machadiana, mas evitou-se olhar, com os nossos olhos carnais ou mesmo imaginários, o triste fim daquela que ficou, para a posteridade, conhecida como o grande enigma da literatura brasileira.

Esse não foi o único caso de contato entre os dois autores. Há alguns anos, Roberto Pompeu de Toledo, colunista da Veja, apontava semelhanças no tratamento entre os cachorros dos dois autores, em Quincas Borba e em Vidas Secas. Neste ponto, me lembro que o colunista até brincou, dizendo que o "comunista e supostamente ateu" Graciliano ainda teve a misericórdia de levar Baleia a um céu dos cachorros, presenteando-a, na vida eterna, com todos os preás que lhes foram privados na terra. A Quincas Borba, nem isso lhe foi concedido.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

fé verbo intransitivo

Os grandes olhos azuis de Plácido estavam intranquilos naquela noite clara de domingo. Ele não possuía os mares não-pacíficos de Maysa. Talvez porque o desventurado não tenha tido um Manuel Bandeira como um admirador. Mas eles merecem a comparação.

Plácido estava com suas estruturas abaladas. Não podia crer em nada. O que aconteceria após a morte? Os bons vão para o céu e os maus para o inferno, como foi ensinado num catecismo tiquetaqueante... mas o que era a bondade ou a maldade? Muitas vezes, pegava-se questionando essas certezas absolutas em prol de imaginar se a ocasião, em qualquer caso, faria o ladrão.

Lembrou-se da definição bíblica de que a fé é o firme fundamento daquilo que não se vê. às vezes, em seus sonhos, Plácido se via fugindo, escapando de um inimigo invisível, sem sexo definido, não sabia se humano ou monstro, enquanto o chão azulejado desfazia-se sob seus pés rumo ao um infinito. A palavra infinito dá uma conotação de céu, de altura, mas este infinito seguia para a terra, para o Hades... Ou será que Plácido estava de cabeça pra baixo, como, aliás, se encontrava o seu mundo?

Plácido se lembrou da definição de fe e concluiu que, tal qual o amor, a fé é um verbo intransitivo. Seu complemento acaba-se em si mesmo. E deve ser assim. Se a fé exigesse qualquer objeto para se completar, seja direto ou indireto, trairia a sua essência. Deixaria de ser fé. Para ser o quê?

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Poeta? Poetinha

Sempre disseram que eu era um poeta. Porém, nunca me vi como um poeta. Para mim, poetas eram aqueles seres que trabalhavam sozinhos, buscando a imagem perfeita, a rima preciosa, a palavra burilada.

Não penso nos simbolistas, acusados de não descerem de suas torres de marfim para ouvir a voz do povo. Penso mesmo em Drummond. Em Vinicius. Em Bandeiras. Desses gênios que souberam transformar o burburinho popular em uma sinfonia de aliterações, ritmos, sons, sentimentos.

A voz que eu escuto é a interior. É a voz que me grita, que me desassossega, que me tira do meu lugar em busca de outro, mais alto que eu. Não sei arrumá-la. Apenas sei desconcertá-la, tirá-la daqui, pô-la acolá, colocando-a apenas na ordem e na lógica que me mandam, as quais - pobre servo - resta apenas obedecer.

Não há sons, não há rimas. Eu sou um poeta que não sei rimar. Eu apenas sei pulsar. Será que sou poeta?