Um dia fui com um amigo de outro Estado a uma danceteria. Cheio de problemas, endividado, cansado de tudo, em um momento de profundas ressignificações, não estava com muita vontade, mas, para não fazer desfeita, fui.
Na pista, indiferente às Gagas, Madonnas e outras menores - cujos lançamentos são meros rastros de vento que não subsistirão à materia e servirão para festinhas temáticas de geração tribunal do Facebook que nasce neste momento - ouvia meu próprio. Dançava sem compasso, sem harmonia com o local, as canções que eles fizeram pra mim.
Uma geração de amigos que morreram de Aids, de overdose, ou que estão no poder. Muitas vezes rasgando suas biografias fora por motivos inconfessáveis e talvez vergonhosos. É ao som de um apesar de você, oração ao tempo, nuvem negra que eu, mais uma vez descompassado, bailo na pista como se estivesse em uma escola de balé.
Ninguém presta atenção em mim. É uma liberdade que muitas vezes desejamos. Mas com o preço da indiferença a ser pago. Mas com harmonia ou não, a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando esta lama...
(sem pedir licença a ninguém para citar versos de músicas, OK?)
sábado, 19 de outubro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Vencido o Canto da Sereia. E agora?
Cinco anos de exílio, em um lugar onde não ouvia sabiás, onde não havia Palmeiras,
onde palmas não sacudiam com o vento.
Onde apenas a lua branca fulgurava esplendorosa, porém tão longe e fria, no excelso firmamento.
Apenas o canto das sereias,
firme
forte
alto
insistente
altissonante
me acompanhava.
Para resistir,
colocava em minha frente a imagem de minha Penélope
a cozer e descozer contínua e descontínuamente o seu velo dourado
A esperar por mim, o teu inconstante Ulisses que ia e voltava, entre uma onda e outra
Com seu pequeno barco às vezes quase à deriva
às vezes, quase por um milagre, resistindo às intempéries do tempo.
Ainda não sei - tal como o poeta português - qual caminho tomar.
Só tenho quase certeza do caminho para o qual não quero retomar.
De maneira nenhum irei por ali.
Seguirei o caminho da literatura? do Ensaio? Quiça dos novos amores?
Apenas sei que será o coração, este músculo importante de onde brota a intuição,
que orientará a trajetória a seguir.
Uma noite a lua brilhará mais
A inspiração será melhor
A transpiração será maior.
O fruto do suor será mais suculento.
Em outras noites, este fruto será mais mirrado.
Mas não importa,
Ambos irão, seguramente, alimentar este espírito que jorra por alguma compreensão além da razão.
Questão de treino. Questão de tempo...
onde palmas não sacudiam com o vento.
Onde apenas a lua branca fulgurava esplendorosa, porém tão longe e fria, no excelso firmamento.
Apenas o canto das sereias,
firme
forte
alto
insistente
altissonante
me acompanhava.
Para resistir,
colocava em minha frente a imagem de minha Penélope
a cozer e descozer contínua e descontínuamente o seu velo dourado
A esperar por mim, o teu inconstante Ulisses que ia e voltava, entre uma onda e outra
Com seu pequeno barco às vezes quase à deriva
às vezes, quase por um milagre, resistindo às intempéries do tempo.
Ainda não sei - tal como o poeta português - qual caminho tomar.
Só tenho quase certeza do caminho para o qual não quero retomar.
De maneira nenhum irei por ali.
Seguirei o caminho da literatura? do Ensaio? Quiça dos novos amores?
Apenas sei que será o coração, este músculo importante de onde brota a intuição,
que orientará a trajetória a seguir.
Uma noite a lua brilhará mais
A inspiração será melhor
A transpiração será maior.
O fruto do suor será mais suculento.
Em outras noites, este fruto será mais mirrado.
Mas não importa,
Ambos irão, seguramente, alimentar este espírito que jorra por alguma compreensão além da razão.
Questão de treino. Questão de tempo...
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Lembretes
1 - Preciso me expor mais
2 - Preciso escrever mais
3 - Preciso fazer uma viagem no pequeno riquixá de vagabundo plástico que está na minha estante
4 - Preciso reunir, ordenar minhas ideias e publicar meu livro.
Tudo isso para a minha salvação
2 - Preciso escrever mais
3 - Preciso fazer uma viagem no pequeno riquixá de vagabundo plástico que está na minha estante
4 - Preciso reunir, ordenar minhas ideias e publicar meu livro.
Tudo isso para a minha salvação
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Almofada
Quisera eu mergulhar profundamente
em seu alvo corpo formado de penas e ar
abraçar - com minhas 8 patas - todo o teu ser
preencher o meu corpo com as tuas lacunas
com peçazinhas que se encaixam e se desencaixam de forma única.
Me vejo afundando de cabeça em tua brancura
alvor que não se traduz em uma pureza lacônica e monótona
Se veste de gostosa melancolia. De uma luz que se abre em espelhos narcísicos
que de teu corpo de forma imperfeita
se traduz em mais-que-perfeição.
Tempo do futuro do pretérito. Aquele que nunca vai ser.
Quisera ter coragem de falar-te palavras reais. Um duro eu te amo - do qual sei que tens medo.
Quisera ser audaz e negar este terror que habita meu vermelho coração.
Vermelho, que inunda e destonifica o branco de seu corpo.
Talvez tenha medo que o vermelho das minhas palavras
ocupe o lugar que deveria ser do meu corpo.
definitiva e para sempre. Infeliz. Para Sempre.
em seu alvo corpo formado de penas e ar
abraçar - com minhas 8 patas - todo o teu ser
preencher o meu corpo com as tuas lacunas
com peçazinhas que se encaixam e se desencaixam de forma única.
Me vejo afundando de cabeça em tua brancura
alvor que não se traduz em uma pureza lacônica e monótona
Se veste de gostosa melancolia. De uma luz que se abre em espelhos narcísicos
que de teu corpo de forma imperfeita
se traduz em mais-que-perfeição.
Tempo do futuro do pretérito. Aquele que nunca vai ser.
Quisera ter coragem de falar-te palavras reais. Um duro eu te amo - do qual sei que tens medo.
Quisera ser audaz e negar este terror que habita meu vermelho coração.
Vermelho, que inunda e destonifica o branco de seu corpo.
Talvez tenha medo que o vermelho das minhas palavras
ocupe o lugar que deveria ser do meu corpo.
definitiva e para sempre. Infeliz. Para Sempre.
sábado, 16 de outubro de 2010
Renovação
Hoje estou fechado para a política. Não desviarei meu olhar para ver candidatos almejando a vitoria a todo o custo. Sorrisos falsos, rostos plásticos, danças e hábitos que revelam a completa incompatibilidade com o mito do popular.
Hoje abro a minha janela para ouvir o canto dos pássaros. Que cantam pelo simples motivo de ver o sol raiar. Que não se importam se o público acredita que seu timbre é agudo demais ou grave demais... que não seguem conselhos de marketeiros apontando quais os caminhos a seguir para avançar alguns pontinhos na pesquisa pela predileção do eleitor.
Pássaros e flores são sábios. Não se envolvem em debates estereis, mas apenas querem cantar. Querem viver. Acho que sigo o exemplo deles. Pelo menos por hora.
Hoje abro a minha janela para ouvir o canto dos pássaros. Que cantam pelo simples motivo de ver o sol raiar. Que não se importam se o público acredita que seu timbre é agudo demais ou grave demais... que não seguem conselhos de marketeiros apontando quais os caminhos a seguir para avançar alguns pontinhos na pesquisa pela predileção do eleitor.
Pássaros e flores são sábios. Não se envolvem em debates estereis, mas apenas querem cantar. Querem viver. Acho que sigo o exemplo deles. Pelo menos por hora.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Anjos e demônios
Estou lendo "A Casa dos Espíritos", da escritora chilena Isabel Allende. Há muitos anos, eu vi o filme no cinema e aquela constelação de estrelas, acredito, deu conta de passar uma história forte, familiar. Como dizem os espanhóis, "me gustan las sagas familiares". E a formação da Familia Trueba, o perfil de Clara del Valle e Estebán Trueba, são absolutamente maravilhosos de devorar. Aos poucos, como uma iguaria que vai derretendo na boca à medida em que a saliva quente da devoção por boas histórias a domina.
O que me impressiona na narrativa de Allende é a capacidade de suceder descrições absolutamente angelicais a linhas que mostram situações que beiram ao escatológico. De repente, saltamos de uma descrição de um banho sendo dado, onde chegamos a sentir os cheiros de alfazema, talco granado e sabonete Phebo e, nas linhas imediatamente seguintes, a atmosfera é tomada pelo mais absoluto odor de enxofre.
Ainda estou no capítulo 3, onde, após 9 anos de um silêncio voluntário, a nossa heroína abre a boca para declarar que se casará com o homem que havia sido noiva de sua irmã, morta acidentalmente envenada em alguns anos anteriores. O casamento é marcado, realizado, e há uma troca do masculino. O cachorro que a seguiu durante a adolescência não suportou a concorrência e morreu demoradamente durante a cerimônia. Vale a pena ler este trecho pensando no porre em que se tornaram as núpcias em nossa sociedade burguesa.
Mas o mais importante é que, no fundo, essas descrições bipolares nada mais são que a explicação de nossa própria natureza. Não somos totalmente anjos e não suportamos o peso integral da demonice. A levez do ser humano consiste em equilibrar esses dois pratos. Sem deixá-los cair. E os personagens allendianos são a expressão perfeita dessa dinâmica.
O que me impressiona na narrativa de Allende é a capacidade de suceder descrições absolutamente angelicais a linhas que mostram situações que beiram ao escatológico. De repente, saltamos de uma descrição de um banho sendo dado, onde chegamos a sentir os cheiros de alfazema, talco granado e sabonete Phebo e, nas linhas imediatamente seguintes, a atmosfera é tomada pelo mais absoluto odor de enxofre.
Ainda estou no capítulo 3, onde, após 9 anos de um silêncio voluntário, a nossa heroína abre a boca para declarar que se casará com o homem que havia sido noiva de sua irmã, morta acidentalmente envenada em alguns anos anteriores. O casamento é marcado, realizado, e há uma troca do masculino. O cachorro que a seguiu durante a adolescência não suportou a concorrência e morreu demoradamente durante a cerimônia. Vale a pena ler este trecho pensando no porre em que se tornaram as núpcias em nossa sociedade burguesa.
Mas o mais importante é que, no fundo, essas descrições bipolares nada mais são que a explicação de nossa própria natureza. Não somos totalmente anjos e não suportamos o peso integral da demonice. A levez do ser humano consiste em equilibrar esses dois pratos. Sem deixá-los cair. E os personagens allendianos são a expressão perfeita dessa dinâmica.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Escrever é...
Escrever é um ato de me desnudar. É permitir que tudo aquilo que eu impeça saia de uma vez. De um fôlego. E, a cada linha que escrevo, sinto-me desnudar. Cada letra é um fibra a menos de pano a cobrir meu corpo, que se vê fragilizado diante do vento das emoções e da paixão. O mesmo vento que embalava os amores trágicos da literatura. Aquele vento que uivava no romance de Brontë; que selava, com ódio e ciúme o amor eterno, impossível, inconciliável e além da vida de Heathcliff e Catherine. O vento que untava, como cimento ressequido por muitos verões, o ciúme, o outro lado do amor, de todos esses casais e que os impedia de fugir de seu inexorável destino.
Escrever é soltar esta pantera de dentro de mim! É ver, através do espelho d´água, a minha imagem narcísica se formar. Onde tudo o que é certo é errado e tudo o que é torto se endireita. Onde o revés dos passos minimamente calculados produz o verdadeiro destino, cria as histórias, modifica as dinastias e inscreve nossa mísera insignificância no panteão dos sistemas de conhecimentos humanos e inumanos.
Escrever é soltar as palavras poéticas sem poesias. Imagens desconexas, sem rima, mas que comunicam: o nada, o tudo, o vazio e a amplidão. Sentimentos contraditórios e coexistentes. Tal como a água e o óleo, que podem se casar por toda a eternidade, mas que nunca se fundem, nunca se misturam. Mantêm intactas suas próprias personalidades, suas características, para formar o todo harmônico.
Escrever é harmonizar os sentimentos tal como as vozes em um coral. Os indíviduos se fundem num único, onde não conseguem ser identificados, por mais que o ouvido seja treinado. Escrever é inseminar um feto no útero, onde, por míseros 9 meses, bebê e mãe se fundem num só, encaminhando-se para um inexorável final ponto.
Fez-se se a luz! Eis o milagre da vida, do nascimento do indivíduo, que irá, como num ciclo eterno, buscar trilhar o seu caminho independente. Para isso, uns irão viver, outros irão sentir, outros irão jogar futebol, alguns terão o maravilhoso dom da música, outros o dom de explorar, mais alguns, os de serem explorados. A mim, apenas me restou o dom de amar. E de escrever sobre aquilo que não posso me expressar. Sobre o indizível. E, com muita sorte, talvez ser compreendido. Nem que seja por mim mesmo...
Escrever é soltar esta pantera de dentro de mim! É ver, através do espelho d´água, a minha imagem narcísica se formar. Onde tudo o que é certo é errado e tudo o que é torto se endireita. Onde o revés dos passos minimamente calculados produz o verdadeiro destino, cria as histórias, modifica as dinastias e inscreve nossa mísera insignificância no panteão dos sistemas de conhecimentos humanos e inumanos.
Escrever é soltar as palavras poéticas sem poesias. Imagens desconexas, sem rima, mas que comunicam: o nada, o tudo, o vazio e a amplidão. Sentimentos contraditórios e coexistentes. Tal como a água e o óleo, que podem se casar por toda a eternidade, mas que nunca se fundem, nunca se misturam. Mantêm intactas suas próprias personalidades, suas características, para formar o todo harmônico.
Escrever é harmonizar os sentimentos tal como as vozes em um coral. Os indíviduos se fundem num único, onde não conseguem ser identificados, por mais que o ouvido seja treinado. Escrever é inseminar um feto no útero, onde, por míseros 9 meses, bebê e mãe se fundem num só, encaminhando-se para um inexorável final ponto.
Fez-se se a luz! Eis o milagre da vida, do nascimento do indivíduo, que irá, como num ciclo eterno, buscar trilhar o seu caminho independente. Para isso, uns irão viver, outros irão sentir, outros irão jogar futebol, alguns terão o maravilhoso dom da música, outros o dom de explorar, mais alguns, os de serem explorados. A mim, apenas me restou o dom de amar. E de escrever sobre aquilo que não posso me expressar. Sobre o indizível. E, com muita sorte, talvez ser compreendido. Nem que seja por mim mesmo...
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