São Paulo está recebendo uma comitiva extremamente importante de intelectuais e pensadores do movimento Portuñol Salvaje. Em termos muito rápidos e muitos simples, são amantes da literatura, da poesia e das artes da região que se reuniram para apoiar e formentar uma literatura completamente inclusiva, baseada, sobretudo nas três línguas oficiais do Mercosul: português, espanhol e guarani.
Segundo um de seus principais representantes, Douglas Diegues, o Portuñol Salvaje busca elencar os elementos simbólicos, orais e escritos das três línguas, na busca de um amálgama que possa refletir a união dos povos. Isso, claro, sem desmerecer a valiosa contribuição de todos os erros e acertos advindos das línguas de outros povos - como chineses, japoneses, coreanos e árabes - que vieram tentar a sorte em terras sud-americanas, por aqui ficaram, e trouxeram em suas malas muito mais que esperança. Trouxeram um caldo cultural extremamente forte.
O Portuñol Salvaje me levou a refletir quais seriam realmente as motivações que levam e que deveriam levar à integração dos povos. Os que lêem pelas cartilhas marxistas argumentam que a infra-estrutura - as variáveis econômicas e ligadas à sobrevivência - determinam os movimentos históricos e até mesmo o posicionamento das super-estruturas, todos os autras variáveis que vão além das necessidades básicas.
O que seria, vendo de outra ótica, se o não-básico determinasse a integração entre os homens? Haveria tanta dominação, a subordinação dos mais fracos ao comando dos mais fortes ou maiores imperaria? Se houvesse uma integração lingüística, cultural primeiro, haveria necessidade de se impor um ou mais que uma língua oficial?
O Portuñol Salvaje prescinde de gramátikas. Não ker impor regras. Aceitará todas as contribuições que vierem. Abarcará todos os modismos. Virá, como uma onda impetuosa de um rio voluptuoso, carregando a terra das margens das florestas. Para criar o novo, a ilha, que despontará do meio do rio e abrirá as fendas da terra para abrigar as sementes. As sementes que germinarão e acabarão dando em frutos de tolerância.
Pode ser uma utopia. Que seja. Mas é uma utopia que independe guerras para vingar.
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terça-feira, 29 de julho de 2008
segunda-feira, 24 de março de 2008
Conclamação
Jurei a mim mesmo que este blog não se prestaria a campanhas de nenhuma espécie, mas a postura da China em relação ao conflito do Tibete me leva a conclamar a todos o devido boicote aos Jogos Olímpicos deste ano. Infelizmente contribuições individuais não ajudarão a derrubar o grande Golias da tirania absoluta, mas quem sabe, se cada faz a tua parte, a gente não rouba alguns dólarezinhos investidos nesta máquina de ganhar dinheiro... e de massacrar gente!
terça-feira, 4 de março de 2008
Sobre mocinhos e vilões
Finalmente, algo interessante ocorreu na América Latina! Nos meus tempos de estudante de relações internacionais, lá pelos idos da década de 90, tudo parecia estar muito bem resolvido na região. Governos com orientações claramente liberais, com um forte alinhamento com a política externa norte-americana (quem não se lembra das "relaciones carnales" dos argentinos com os norte-americanos?), a questão social completamente encoberta pela necessidade de se cortar gastos públicos e uma crônica crise estrutural de credibilidade marcavam o cenário político e econômico da região
Ventos de mudanças, vindos principalmente da Venezuela, alteraram em parte este cenário. Continuamos pagando juros escorchantes, mas os dirigentes latino-americanos descobriram o discurso norte-americano como bandeira garantida para assegurar a popularidade junto ao eleitorado. E no caso de Hugo Chávez, esse discurso - para o bem ou para o mal - também garante uma certa ascendência no cenário internacional, com bons holofotes e muitas páginas na mídia internacional.
A crise diplomática instaurada entre Equador, Colômbia e Venezuela envolve variáveis muito mais ideológicas e políticas do que propriamente ligadas ao direito. A Colômbia, a meu ver, foi ingênua ao invadir o território equatoriano, em busca de guerrilheiros da Farc. Essa frase precisa ser compreendida dentro de todo o contexto geopolítico da região que, de um lado, contempla uma sistemática campanha antiamericanista protagonizada por Chavez, Correa e seus alinhados na região e, por outro, uma forte ingerência norte-americana na Colômbia, por conta do apoio norte-americano ao combate ao narcotráfico.
A questão é a seguinte: houve um atentado à soberania equatoriana pelo governo colombiano, evidentemente. Mas, ao negociar diretamente com as Farc, ignorando completamente a autoridade local, Hugo Chávez não cometeu uma afronta similar à autodeterminação do país vizinho? Um argumento que ambos podem alegar para se defender é que havia uma motivação humanitária (o que é muito justo. Vidas inocentes não podem pagar pela ação ou omissão de países), mas, na verdade, é que foram, igualmente, ingerências que foram completamente contrárias aos governos estabelecidos.
A questão é que uma invasão material é muito mais patentemente contrária à ordem internacional e aos costumes que uma negociação que apenas permaneceu no plano da ação diplomática - e que foi muito bem sucedida, por sinal. Porém, não deixam de ser, igualmente, violações, tanto da Venezuela quanto da Colômbia.
A impressão é a de que houve a construção de um xadrez geopolítico muito bem arquitetado. E a Colômbia foi a principal peça dessa movimentação. Vamos esperar as próximas jogadas. Mas duvido que haverá algum xeque-mate.
Ventos de mudanças, vindos principalmente da Venezuela, alteraram em parte este cenário. Continuamos pagando juros escorchantes, mas os dirigentes latino-americanos descobriram o discurso norte-americano como bandeira garantida para assegurar a popularidade junto ao eleitorado. E no caso de Hugo Chávez, esse discurso - para o bem ou para o mal - também garante uma certa ascendência no cenário internacional, com bons holofotes e muitas páginas na mídia internacional.
A crise diplomática instaurada entre Equador, Colômbia e Venezuela envolve variáveis muito mais ideológicas e políticas do que propriamente ligadas ao direito. A Colômbia, a meu ver, foi ingênua ao invadir o território equatoriano, em busca de guerrilheiros da Farc. Essa frase precisa ser compreendida dentro de todo o contexto geopolítico da região que, de um lado, contempla uma sistemática campanha antiamericanista protagonizada por Chavez, Correa e seus alinhados na região e, por outro, uma forte ingerência norte-americana na Colômbia, por conta do apoio norte-americano ao combate ao narcotráfico.
A questão é a seguinte: houve um atentado à soberania equatoriana pelo governo colombiano, evidentemente. Mas, ao negociar diretamente com as Farc, ignorando completamente a autoridade local, Hugo Chávez não cometeu uma afronta similar à autodeterminação do país vizinho? Um argumento que ambos podem alegar para se defender é que havia uma motivação humanitária (o que é muito justo. Vidas inocentes não podem pagar pela ação ou omissão de países), mas, na verdade, é que foram, igualmente, ingerências que foram completamente contrárias aos governos estabelecidos.
A questão é que uma invasão material é muito mais patentemente contrária à ordem internacional e aos costumes que uma negociação que apenas permaneceu no plano da ação diplomática - e que foi muito bem sucedida, por sinal. Porém, não deixam de ser, igualmente, violações, tanto da Venezuela quanto da Colômbia.
A impressão é a de que houve a construção de um xadrez geopolítico muito bem arquitetado. E a Colômbia foi a principal peça dessa movimentação. Vamos esperar as próximas jogadas. Mas duvido que haverá algum xeque-mate.
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